Sentado num banco da praça.

O sol me visita com aquele calor de quem sabe que vai se despedir e eu fico ali, imóvel por fora, remexido por dentro.

Depois de dias de chuva, ele apareceu. E talvez seja o último por um tempo.

Minha esposa arruma as malas. Os gatos dormem. E eu, entre o calor que sobra na pele e a previsão de mais semanas molhadas, me preparo pra um tempo de silêncio.

Ela viaja. Eu fico. E não é só solidão, é espaço.

Espaço que, pela primeira vez em muito tempo, não vem de urgência. Vem como presente estranho: um pouco incômodo, um pouco necessário.

É estranho chamar de presente um período em que posso ter que sair de casa de novo. Levar os gatos, buscar abrigo. Mas é isso: o presente nunca vem limpo.

Dessa vez, talvez o abrigo também seja interno.


Perguntas para os dias de silêncio

Um relicário de interrogações para as próximas semanas, escolhidas a dedo entre vozes que pensam o mundo de outro jeito.

Silvia Federici pergunta: Como cuidar de mim sem cair na lógica do desempenho?

Walter Benjamin pergunta: Que ruínas ainda vivem em mim?

bell hooks pergunta: O que seria um gesto de ternura comigo mesmo agora?

Achille Mbembe pergunta: Qual é o tempo que me habita quando não tô correndo atrás de nada?

Paulo Freire pergunta: Esse silêncio pode ser pedagógico?


Ainda não sei como vão ser as próximas semanas.

Talvez eu escreva mais. Talvez só pense.

Talvez só respire fundo enquanto a água não chega.

Mas de alguma forma, sei que o tempo vai me atravessar. E eu quero estar aberto pra ser atravessado.

Nem sempre com coragem. Mas com presença.

E se for pra ficar sozinho por uns dias, que ao menos eu me encontre.

Ou me escute, sem pressa, pela primeira vez em muito tempo.