Eu aprendi com o tempo que quem realmente se importa contigo, não importa a distância, um dia volta e mesmo que tenha passado anos parece que foi semana passada a última vez que vocês se viram.
Se um dia a gente se perder — aos que são, aos que foram, aos que talvez um dia voltem
Eu não sei onde a vida vai colocar a gente amanhã. Nem se vamos ter tempo, coragem ou sinal de celular. Mas tem sentimentos que já vivem na gente antes mesmo de virar gesto. Essa carta é um desses.
Escrevo pra vocês — os que riram comigo por horas em cima de paletes numa cervejaria qualquer, ou dividiram um croissant e um céu estrelado no teto da padaria. Aos que suaram comigo nos blocos de carnaval aos quarenta graus, e aos que me fizeram rir, assando churrasco em novembro, ao meio-dia. E também aos que cruzaram meu caminho na travessa da CB, com olhos que reconheciam algo que nem sabiam que tinham perdido.
Escrevo pro amigo que nunca abracei, mas que cresceu comigo desde os tempos de Ragnarok. Hoje ele é pai. E me ensina que crescer também é isso: seguir presente, mesmo longe.
Escrevo pro amigo que veio de longe viver aventuras perto, e depois foi levado por outras rotas. Mas o destino, generoso, alinhavou as margens do nosso tempo, e eu encontrei abrigo inesperado — na geografia, no afeto, nos detalhes de um dia comum na Europa.
Escrevo também aos que se foram. Porque quiseram. Porque se perderam. Ou porque a vida, simplesmente, levou. Nem toda amizade sobrevive à distância. Algumas desbotam devagar. Outras somem como quem vai à missa e esquece por que rezamos.
Mas tem aquelas que, mesmo raras, voltariam inteiras no primeiro abraço.
Ainda não sei se isso tudo é bênção ou só um excesso bonito. Às vezes, um scroll basta pra afogar perguntas demais. Mas com vocês, aprendi a viver em abundância. Não de rotina — mas de possibilidade. A possibilidade de cruzar um amigo na rua e parar o tempo. De um silêncio dizer tudo. De um abraço guardar o que a palavra não alcança.
Se um dia eu esquecer quem fui, espero que a lembrança de vocês ainda viva em mim — como quem guarda o cheiro de pão quentinho, mesmo sem lembrar o nome da padaria.
E se for pra nos perdermos, que seja só de vista. Porque de coração, a gente não se perde fácil.
Aos que ficam, meu abraço mais sincero. Aos que foram, a porta segue aberta — mas que entrem com empatia.
Porque tem laços que mesmo desfeitos seguem abraçando por dentro.
para os amigos que são casa, mesmo quando a gente mora longe.