Desde que a Raquel viajou, voltei a fotografar.
Não por solidão, mas por vontade de mais presença. A fotografia sempre foi pra mim: uma maneira de estar atento, um jeito de guardar o instante, de construir um portal pra voltar quando o mundo ficar mais difícil.
Uma imagem pode ser um abrigo. E às vezes, pode ser também uma ponte. Um gesto de dizer: "tava aqui. quero que tu veja comigo."
Mas nos últimos dias, junto desse gesto antigo, veio também uma inquietação nova.
Talvez ela esteja na expectativa das fotos do casamento. Ou na forma como nos sentimos coagidos a postar tudo. Ou, quem sabe, na ausência da Raquel, que me deixou mais atento às redes sociais e ao que permanece.
Então eu resolvi escrever: não sobre as fotos em si, mas sobre o que a gente espera delas. E sobre o que elas esperam da gente.
O portal
Parar para fotografar nunca foi, pra mim, um gesto automático. É uma forma de atenção. De tornar presente aquilo que, sem o clique, talvez escorresse despercebido.
Quando eu fotografo, eu não me afasto. Eu mergulho.
Eu quero guardar o que estou vivendo agora: pra, num outro tempo, em outro corpo, numa outra casa, voltar até ali.
Voltar com os meus próprios olhos. Ou levar alguém comigo.
É por isso que, desde que a Raquel saiu em viagem, comecei a escrever também um diário. Chamei de Diário de uma ausência. Nele, eu conto os dias. E muitas das fotos que tenho feito são descritas ali, não como imagem, mas como momento.
Fotografia e palavra se encostam. Uma segura a outra. Porque eu sei que a imagem sozinha não dá conta. E tenho muito pra dividir com meu amor quando ela voltar.
O fragmento
Toda fotografia é um recorte. Uma escolha. Uma exclusão.
Vilém Flusser, na teoria da caixa preta, dizia que a câmera é uma máquina de codificação. Ela transforma o mundo em bits, luz, dados. Mas quem decide o que vale a pena ser capturado? Quem programa o gesto?
Hoje, a maioria das imagens nasce já com uma legenda imaginada. Uma moldura social. Uma ansiedade de publicação.
Não se fotografa mais pra lembrar. Se fotografa pra postar.
A gente já não registra o que sente. Registra o que engaja.
E o clique que deveria ser um mergulho vira um reflexo. Um reflexo do que pode ser curtido, consumido, capitalizado.
Porque o tempo do feed não é o tempo da memória. E o gesto de postar não é o mesmo que o gesto de partilhar.
As imagens do casamento
As fotos chegaram semanas atrás. Vieram lindas, cuidadas, cheias de pequenos detalhes que ainda me emocionam.
Mas vieram também acompanhadas de uma tarefa silenciosa: escolher, organizar, postar, agradecer. Cumprir o protocolo do amor publicado.
E foi aí que algo me tocou.
O casamento é um gesto profundo. É um corpo a dois. É uma vida sendo misturada em silêncio, rotina, café coado, toalha molhada no varal.
Mas quando a gente transforma isso em carrossel, em reel, em legenda inspirada — o que fica de fora?
Se a postagem não rende, se o algoritmo não entrega, será que o amor ainda vale?
Vivemos num mundo onde não basta amar. É preciso performar o amor. E, de preferência, com boa luz, boa edição e bom alcance.
A engrenagem
A lógica das redes sociais não é neutra. Ela não foi feita pra conectar afetos, mas pra explorar atenção.
O que a gente compartilha — imagens, memórias, corpos, emoções — tudo vira conteúdo, e todo conteúdo pode ser monetizado. Não por nós, que postamos. Mas por aqueles que controlam as plataformas.
A pressão de postar é cultural, mas também econômica. Ela nasce de um sistema que precisa que a gente se exponha, pra que outros lucrem com o que a gente viveu.
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, já alertava:
"Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação."
Hoje, até a lembrança precisa de embalagem. E a experiência precisa de um público.
A roda
Mas e se a gente tentasse outra coisa?
E se, em vez de postar, a gente sentasse? Mostrasse as fotos com calma. Contasse as histórias. Mostrasse os erros de enquadramento, os bastidores, os absurdos.
E se a memória voltasse a ser uma conversa? Não um conteúdo. Não uma entrega. Mas uma partilha.
Uma roda, um café, um tempo. Uma insurgência do afeto contra a lógica do consumo.
Depois das fotos
Desde que a Raquel viajou, voltei a fotografar. Mas com outra atenção.
Hoje eu fotografo como quem escreve uma carta. Não pra todo mundo. Mas pra alguém que vai entender o que não coube na imagem.
Porque o que eu quero com essas fotos não é like, nem alcance, nem frase de impacto.
O que eu quero é voltar pra esses lugares. Quero que me chamem pra perguntar como foi o dia, o que eu estava sentindo quando capturei aquele momento. Sentar juntos e lembrar. Rir das comidas, dos cheiros, das pequenas bagunças. E talvez chorar do que já vivemos também.
O que eu quero com essas fotos é viver de novo o que já foi, mas só se ainda fizer sentido.
Porque depois das fotos, a gente precisa decidir o que fazer com o que viveu.
E eu escolho lembrar. Mas não sozinho.
Para Raquel, que me ensina que o amor não precisa de performance — só de presença.