O corpo acorda sem pressa. Tomo banho, dou comida pros gatos, passo um café. É o mesmo de sempre: forte, encorpado, mas nunca amargo. Aquece as mãos, acorda a alma, convida o dia a começar.

No silêncio da cozinha, enquanto o vapor sobe, sinto que talvez esse seja o último momento realmente meu antes que o mundo comece a me pedir de volta.

Não tenho compromisso nenhum hoje. Pelo menos, nada marcado na agenda. Mas tenho tarefas. Coisas que precisam ser feitas se eu quiser atravessar a semana com alguma dignidade.

Saio pra feira com a sacola no ombro e a sensação de que estou tentando me adiantar aos problemas da próxima terça. Como se fosse possível acumular cuidado.

Ando entre as bancas, escolhendo o que vai me alimentar: um maracujá bem firme, o abacate com a casca no ponto, um punhado de folhas que ainda respiram.

Há prazer nisso. Mas também um incômodo, sutil, persistente. Como se até ali, no tempo que deveria ser de descanso, eu ainda estivesse cumprindo obrigações.

O sábado é o que sobrou. É o tempo onde preciso fazer caber o que não cabe durante a semana: comer bem, cuidar da casa, comprar o que falta, tentar descansar, encontrar alguém, resolver o que ficou pendente.

Tudo isso espremido num dia e meio de liberdade.

E mesmo enquanto escolho o que me faz bem, há um ruído que não cala. Um desejo de mais, de diferente, de novo. Um tempero que não preciso. Um queijo que já tenho.

É o consumo vestindo outra roupa. A do cuidado, do merecimento, da recompensa. Mas ainda consumo. Ainda o mesmo velho truque do capital. Criar em mim uma falta e depois vender a promessa de saciá-la.

Carrego o essencial nas mãos, mas a cabeça tropeça em desejos plantados. E percebo, sem precisar dizer em voz alta, que o tempo que me impõem é outro.


II. Uma pausa no meio do sistema

É o tempo que corre no pulso e no canto da tela. Tempo que exige produtividade, que cobra presença digital, que transforma descanso em dívida.

Mas o tempo que pulsa no meu peito é outro. É o tempo de escutar uma risada sem olhar pro relógio. De cortar uma fruta devagar, de partilhar um silêncio sem culpa.

Esse tempo, quase sempre, não cabe na semana. E às vezes nem no fim de semana. O capitalismo nos ensinou a medir tudo. Menos o que importa.

Depois da feira, aceitei um convite: uma visita a uma nova intervenção no MARGS. No meio da manhã de sábado, um museu cheio de arte e corpos atentos parece resistência.

Caminhei entre as obras, senti a pausa.

Mas ali, no museu, os minutos não precisavam render. Eles apenas existiam. As obras não queriam minha compra, nem meu clique. Queriam meu tempo.

Mais tarde, depois da exposição, sentei com meu amigo pra um almoço demorado. Falamos muito. Sobre a vida, o trabalho, o cansaço que nunca se resolve.

Baudrillard também nos acompanhava, sem ser convidado. Consumimos não mais pelo uso, mas pelo significado das coisas. Talvez por isso eu deseje um tipo específico de azeite ou um utensílio novo de cozinha, mesmo sabendo que não me faltam os antigos.

Não compro para usar. Compro para ser. Para significar. Para ocupar um lugar nessa vitrine social onde tudo precisa dizer algo sobre quem somos.


III. Reaprender a desejar

Ao voltar pra casa, no fim da tarde, havia uma leveza estranha. Como se parte da pressão tivesse sido suspensa por algumas horas. Talvez porque, naquele sábado, conseguimos cavar um buraco no tempo. Um intervalo. Uma brecha.

"O cuidado não é uma tarefa privada, mas uma prática política" (Silvia Federici). E talvez seja isso que nos salve. A consciência de que conversar, cozinhar, descansar, pensar junto também é um modo de resistir.

Porque não dá pra enfrentar esse mundo sozinho. Nem correndo.

Resistir talvez seja isso: reaprender a desejar. Reencantar o tempo. E lembrar que nem todo cuidado precisa terminar em produtividade.

O dia passou. A feira ficou. O museu ficou. A conversa ficou.

E talvez tenha ficado também uma pergunta:

Que tempo queremos habitar?

E quem podemos ser se medirmos a vida pelos momentos em que a gente realmente estava presente?


Para Mateus, que me ajudou a cavar tempo com palavras. E que, num sábado qualquer, me lembrou que divagar também é uma forma de cuidar.

P.S: no fim das contas, acabei comprando uma espátula de bambu. Mais por desejo do que por necessidade.