Alguns baldes só molham. Outros moldam para sempre o jeito como saímos da cama.

Tem coisa que não sai da gente. Nunca gostei de despertador. Só de pensar em acordar com barulho brusco já sinto a pele arrepiar.

Na adolescência era pior. Eu me enrolava na cama como se o lençol fosse um esconderijo. Achava que podia ganhar mais alguns minutos. Mas não ganhava. Nunca ganhava.

Meu pai não chamava. Não batia na porta. Não falava nada. Só vinha. Às vezes com uma bacia, às vezes uma garrafa plástica, às vezes o que tivesse à mão. A água caía gelada, inevitável, derrubando de uma vez qualquer resistência.

Acordar era isso. Não um gesto, mas um processo. Um susto primeiro. Depois, o corpo aceitando o que a mente já sabia: não tinha escolha.

Descia pra padaria pisando no cimento gelado. O cheiro da lenha queimando me avisava que o dia já tinha começado sem mim.

Sempre de cinco em cinco. Tinha que contar os pães. Só cinco. Nem três, nem quatro. Cinco.

Eu errava. Voltava. Recomeçava. Me sentia pequeno, sem ritmo, tentando acertar no escuro da madrugada.


O tempo passou. A padaria virou memória. As mãos do meu pai não amassam mais o pão, nem na puxam mais a brasa.

Mas o balde ficou. Invisível, mas presente.

Hoje acordo cedo, sozinho. Antes do sol. Não porque queira, mas porque não consigo mais não levantar. O corpo aprendeu o susto mesmo sem a água.

Preparo o café. Sem pressa. A chaleira em 96 graus. O vapor sobe e desaparece. Ninguém me apressa. Essa primeira hora do dia é minha. Só minha.

E se alguém ou algo tenta tirar de mim esse momento, me frusto. Achava que não gostava de academia, ledo engano, era o compromisso do horário.

A vida deixou marcas. Algumas leves, outras nem tanto. Tem baldes que te acordam. E tem baldes que nunca mais deixam você dormir do mesmo jeito.

A grande vitória não é escapar do balde. É acordar antes dele. Escolher abrir os olhos, sair da cama no seu tempo.

Com café, com silêncio, com paz.

Só isso já basta.