Para as promessas que mofaram antes do apocalipse chegar.

Sinto falta dos fins do mundo que vinham com data marcada. Bug do milênio, calendário maia, cometa que nunca chegou.

O medo era piada séria, trazia certo charme. Dava até pra rir, com pastel na mão.

Na minha casa, mamãe escondeu duas latas de creme de leite pra fazer estrogonofe se tudo acabasse.

Mas era pra mim. Ela sabia se o fim viesse, que pelo menos tivesse gosto.

Era o plano dela: se for pra acabar, que tenha sabor.

Hoje não tem plano. Tem só prorrogação. O fim chegou em silêncio, parcelado, sem trilha sonora.

E o que era delírio virou hábito. O que era medo virou mês.

O fim chegou. E não tem mais creme de leite.


Talvez seja isso que mais me assusta: não o fim, mas ele ter perdido o gosto.