Às vezes eu acordo com o corpo querendo mato.
Não um mato idealizado, de família vaqueira — isso existe?
Mas aquele mato real, que coça a pele, onde o mosquito insiste em ser vizinho, e o silêncio é feito de cigarra e vento nas copas das árvores.
Imagino acordar cedo, passar um café ou preparar um chimas. Sentar na varanda de casa, num lugar onde o sol bate torto e quente. E mesmo que incomode, eu deixo.
Ficar ali, só, curtindo.
Sem relatório, sem alarme, sem o barulho metálico dos carros acelerando na rua debaixo.
Sem esse peso invisível de ter que justificar o dia antes mesmo de viver a manhã.
Só isso. E parece tanto.
Mas logo depois dessa imagem tão calma, tão minha, vem o pensamento rápido: e o mercado mais próximo, fica a quantos quilômetros? e se faltar gás? e se acabar o sabão?
Tem uma parte de mim que duvida da própria paz. Que aprendeu a chamar de "facilidade" o fato de poder resolver tudo com um clique, como se o que importasse fosse resolver — não sentir.
Essa parte que quer tudo prático. Que não quer perder tempo.
Mas tempo pra quê?
Vivemos onde ir até a feira virou perda de tempo. Onde cortar legumes com calma parece um luxo. Onde descansar sem culpa é quase um ato de desobediência civil.
E eu me pego pensando se a tal "facilidade" que me prende na cidade não é só uma desculpa bonita pra continuar anestesiado.
Porque ir ao supermercado é rápido, sim — mas viver devagar nunca foi.
E assim fica na ideia:
o pedaço de tempo que seja só meu. A varanda com sol teimoso.
Ou, ao menos, um intervalo.
Talvez o luxo seja só isso: um tempo que ninguém toca.