Sempre disseram que todo ser humano busca se conectar. Escutei isso de psicólogo, de padre, de amigo, até de influenciador. Mas nunca perguntaram o preço.

Cresci junto com a internet chegando devagar pelos fundos do Brasil. E com as redes sociais, que antes de virarem aplicativo, já eram rede: um jeito de nomear alianças, brigas, sumiços. Essas que sustentam a gente fora do sinal.

Antes de "conexão" ser sinônimo de barra cheia, era preciso combinar horário, sair de casa, esperar na calçada, errar o portão, inventar assunto, cansar junto.

Eu devia ter uns nove ou dez anos. Minha tia, paciente, me levou com o Douglas, amigo de infância, ao shopping rosa de Canoas. Nem lembro o motivo. Talvez presente, talvez cabelo. Talvez só passeio.

Douglas já conhecia a lan house ao lado do Rissul. Era uma sala barulhenta, teclas batendo, vozes abafadas, vento de cooler. Lembro da sensação de entrar ali, um susto bom, como atravessar um portal. Conhecer um lugar novo.

Na tela, um mundo que não existia do lado de fora. Ali, internet era novidade. Promessa.

A vida ainda era mais rua do que rede, naquela época.

De lá pra cá, mudou tudo. Mudou o jeito de esperar, de sentir falta, de se perder. Se antes ausência era silêncio, agora é "visto por último", "digitando…", "online agora".

A promessa era conexão. O que veio foi um emaranhado de presença vigiada, afeto medido em notificação, saudade que não sabe esperar.

A disciplina, que antes era voltar pra casa na hora certa, virou meta de passos, alerta de senha vazada no meio da manhã. O controle saiu do corpo. Virou algoritmo.

Às vezes me pergunto se essa empatia dos posts motivacionais não virou só mais uma moeda. Algo que se troca, se cobra, se expõe. O olho do outro virou aviso. A falta, estatística.

E no meio disso tudo, o que resta daquelas conexões sem wi-fi?

Às vezes acho que a gente anda cada vez mais junto, mas cada vez mais só.

Sinto falta de ir até o portão pra saber se alguém queria brincar. De esperar. De não saber. De não estar sempre à mão.

O mundo ficou urgente. É medo de sumir. E tudo tem custo. Presença, sono, mistério.

Talvez a saída seja deixar o silêncio voltar. Reaprender a esperar sem cobrança. Conexão que não precise de legenda.

A infância vai ficando longe, mas ainda lembro do susto bom da primeira lan house. Aquela vontade de descobrir. O mundo esperando do outro lado do vidro.

No fundo, acho que seguimos procurando um lugar de encontro que não peça resposta imediata. Um tempo em que a presença baste. E a saudade seja só o intervalo natural entre uma chegada e outra.

Às vezes, tudo o que a gente precisa é uma tarde sem wi-fi, um banco de praça, uma ausência que não apresse o retorno.