Era um dia bonito. Sol aberto, desses que parecem convite. E eu, do lado de dentro, tentando me convencer de que ainda dava tempo.
Mas o corpo não respondia.
Quando percebi que o show já tinha começado sem mim, meu reflexo não foi parar, foi sair. Botei uma roupa qualquer, lavei o rosto, escovei os dentes. Entrei no carro.
Botei o lixo na rua, fui ao mercado, busquei a ração nova do gato, peguei as roupas no ajuste.
Um a um, os pequenos esquecimentos da semana foram entrando na lista.
No lugar de descanso, inventei mais tarefas.
E mesmo na rua, no movimento, no cheiro do fim de tarde, eu só repetia a sensação de dívida.
Por não ter conseguido estar no show, eu precisava compensar com eficiência. De onde vem essa culpa invisível? Quem foi que ensinou a gente que até no descanso precisa haver produtividade?
Talvez não seja só o mundo que cobra, talvez sejamos nós. Reproduzindo a lógica sócio cultural que aprendemos desde o nascimento. Acreditando que estar vivo não basta, que é preciso estar produzindo.
O sol foi embora. O show também.
E eu fiquei com a lista de compras feita, o lixo recolhido, o dever cumprido.
Mas ainda assim, um vazio.