Faz poucos meses que descansei.

Mas meu corpo jura que faz anos.

A última vez que lembro de ter respirado fundo foi na Itália.
Lua de mel, pressa com paisagem.
Mas ali, no meio do idioma estranho e do sol de outono,
meu peito não doía de culpa.

Era só o mundo lá fora,
e eu aqui dentro.

Com ela.
Com o tempo.

Desde então, tudo parece ter voltado a correr
antes da gente poder andar.

Trabalho, prazos, cobranças, cronogramas.
Tudo gritando junto, como se viver fosse uma corrida
com GPS berrando o tempo todo: "recalculando rota."

E eu só queria uma rede.

Ou o som do mar
dissolvendo o que ainda me pressiona por dentro.

Ou as cigarras gritando por mim,
pra eu poder ficar quieto.

Não quero muito.

Só um fim de semana sem tarefas.
Só o direito de não ser produtivo.
Só um corpo que possa existir sem desempenho.

Eu, meu amor,
e um pedaço de mundo
onde o relógio esqueceu de acordar.