Voltei há poucos dias das férias. O som do mar já não acalenta mais o meu dia.

Agora é o barulho da cidade que ocupa o espaço, o tempo, o ritmo.
O mesmo de sempre, mas eu voltei diferente.

Junto com a volta, veio algo que demorou anos pra chegar.

Visitamos uma dúzia de apartamentos. Talvez mais. Cada um com sua lista de qualidades, cada um tentando convencer. Num mesmo dia fomos ver três. O primeiro foi o nosso. Não porque era perfeito, mas porque depois dele os outros dois perderam as suas cores. Não por defeito. Só porque aquele primeiro já tinha respondido algo que a gente ainda nem sabia perguntar.

Era um apartamento vivido. O prédio faz 50 anos esse ano. Tem a memória de quem já morou, de quem já cozinhou, de quem já esperou a chuva passar pela mesma janela.

Não era novo.
Era real.

Mas a certeza não veio na primeira visita. Veio na segunda, quando ainda estávamos em dúvida, e fomos brindados com uma informação que não estava no anúncio: grandes amigos nossos estavam se mudando a uma quadra de distância. Não estou falando de um telefonema ocasional. Estou falando de se esbarrar na rua. De ir na vidinha juntos. De poder pedir açúcar se faltar em casa.

Ali a dúvida foi embora.

E hoje, terminei o dia tomando chá preto e conversando sobre a vida com esses mesmos amigos. Então eu já sei que não era ilusão.

Essa escolha é por nós.
Pra nós.

Não é pra parecer, não é pra performar, não é pra caber no olhar de ninguém.

Num mundo que transforma tudo em vitrine, onde até o descanso precisa provar que aconteceu, escolher viver pra si é quase um ato de resistência.

O compromisso de trinta anos assusta. Mas existe uma diferença entre o medo que paralisa e o medo que ancora. Esse aqui ancora. Lembra, todo dia, que existe algo sendo construído.

A casa no campo,
no interior,
com cigarra
e silêncio,
ela ainda existe como desejo.
Pode esperar.

Porque agora existe um chão. E o chão, antes de qualquer coisa, é o que permite ficar de pé.

O mar ficou pra trás.

O que ficou na frente tem janela, tem Raquel, tem amigos a uma quadra, e tem tempo pra descobrir o que ainda vai ser.

Isso, hoje, é mais do que suficiente.