Domingo na Redenção.
O sol entrava tímido pelo teto solar, iluminando nossa conversa ao som lento de uma Cumbia colombiana.
Procurávamos uma vaga.
Parque cheio — o que já era esperado. Mas sempre me estresso ao tentar estacionar.
Achamos!!! E junto com ela, ele.
O flanelinha.
Veio rápido, já assumindo o comando da manobra com a autoridade de quem conhece o terreno.
— Bem cuidado, chefia. Nem cachorro vai mijar nas rodas do carro do senhor.
Sorri com o canto da boca, sem saber bem o que dizer.
Olhei pro parquímetro. Área azul. Pagamento por app, valor fixo, cobrança oficial.
Mas ele estava ali. Físico. Presente.
— Vou pagar na volta, tá?
Ele assentiu, meio rindo, meio sério:
— Na volta a gente não sabe, né, chefia…
Entramos no parque.
O chão ainda trazia restos da chuva de ontem. Poças esparsas intercalavam o caminho, como vírgulas entre nossas frases.
Desviávamos delas com passos curtos, enquanto a conversa se esticava até tropeçar na pergunta inevitável:
O que faz alguém fazer isso? Quem inventou esse tipo de função? Quem ensinou que, se não pagarmos, talvez algo aconteça? Quem tem medo de quem?
A cidade grande parece oferecer tudo. Mas cobra em parcelas invisíveis.
Às vezes, o boleto é a desconfiança. A incerteza. O retrovisor.
Será que é mesmo isso que queremos?
Caminhamos mais um pouco.
Talvez essa "profissão" tenha nascido de um desvio. Ou de um buraco. Um daqueles que o Estado deixou aberto e alguém ocupou — não por malícia, mas por sobrevivência.
Talvez tenha começado com cuidado genuíno. Mas virou sistema paralelo, onde o pagamento é pela ausência de dano. Não pelo serviço.
Quando voltamos ao carro, ele estava lá. Inteiro. Exatamente como deixamos.
Mas o flanelinha, não.
Nem sinal. Nem rastro. Como se nunca tivesse existido.
A vaga, agora vazia, ainda parecia conter sua sombra.
O carro está ali, intacto.
Mas talvez a verdadeira pergunta nunca tenha sido sobre ele…
Na volta, o que a gente paga é o medo de não voltar inteiro.