Para tudo aquilo que pulsa quando o corpo já não dá conta.

TUDO QUE NÃO CABIA NO CORPO

Tem dias em que acordo com a impressão de que algo está me crescendo por dentro. Não é fome, nem dor. É uma espécie de ideia sem forma, um sentimento com cotovelos. Bate nas costelas, empurra o esterno, pede passagem. O corpo, esse velho abrigo de pele e silêncio, já não comporta tudo que se passa cá dentro.

Foi por isso que comecei este espaço. Este jornalete. Este pedaço de mundo onde posso deixar escorrer o que não sei segurar.


A vida, aprendi, não acontece em linha reta. Ela dobra, entorta, derrama, atravessa. Somos feitos de começos que ninguém viu, de partidas disfarçadas de rotina, de vontades que jamais aprenderam a sentar direito.

E quando não cabe mais, quando transborda, a gente escreve. Escrever, no fim, é só uma forma de fazer bagunça com delicadeza. De colocar em palavras o que o coração fala com gagueira.

Não espere aqui grandes conclusões. Talvez só ache perguntas com nomes estranhos e saudades de coisas que nem vivi. Mas vou deixar registrado. Porque escrever é meu jeito de não deixar o mundo escapar sem bilhete.


Neste exato instante, por exemplo, estou sentado com uma xícara de café pela metade, olhando o céu pela fresta da dúvida. A rua lá fora tem o barulho dos vizinhos e o cheiro de pão queimado. Mas aqui dentro... aqui dentro o tempo caminha com mais lentidão. E cada palavra que nasce é uma tentativa de me entender ou de me perdoar por não entender nada.


Seja bem-vindo a este canto. Um lugar onde tudo que não coube em mim encontra abrigo. Onde as memórias ganham voz, as vontades se esticam, e o silêncio, ah, o silêncio, finalmente tem com quem conversar.

Hoje começa um novo pedaço de mim. A sua construção foi longa, mas está na hora de como uma borboleta, sair do casulo e se entregar ao mundo.

E talvez, de algum jeito torto e bonito, comece um pedaço de você também...