Entre o sonho que nos prometeram e o silêncio onde aprendemos a ficar.

18 de maio de 2025, 16:30

Meus pais cresceram acreditando no milagre do esforço, na terra prometida do "um dia você chega lá".

Era a versão brasileira do "sonho americano", só que com carne de segunda, entrada financiada e fé de sobra.

A crença era simples e profunda: se trabalhar direito, Deus ajuda. Se ralar bastante, a recompensa vem.

E mesmo quando não vinha, eles continuavam.

Meu pai seguia, minha mãe sorria, e eu aprendia a calar, porque parecia feio duvidar de quem tanto tentou.

Mas cresci, e, crescendo, comecei a ver as rachaduras no sonho.

Vi que nem sempre o mérito vence. Que o esforço pode ser imenso e ainda assim insuficiente. Que a fila anda pra quem já nasceu mais perto da porta.

Foi duro aceitar isso.

Porque não é só sobre dinheiro, é sobre sentido.

O que fazemos quando o que nos ensinaram a desejar se revela inalcançável?

Por um tempo, flertei com o cinismo, com a ironia, com o desdém.

Mas não me serviram. Não cabiam no meu corpo, que ainda queria acreditar em alguma coisa.

Foi aí que descobri a esperança.

Não a certeza mágica do "vai dar tudo certo", mas a escolha silenciosa de olhar pro agora e dizer: ainda assim, vale a pena cuidar.

Cuidar do pão que assa, do corpo que acorda, do amigo que escuta, do tempo que escorre devagar.

Meus pais seguem acreditando que a vitória um dia vem. Eu aprendi a achar beleza mesmo sem ela.

E talvez, no fim das contas, estejamos todos buscando a mesma coisa: uma forma de continuar amando o mundo mesmo quando ele não nos devolve nada.

Porque entre a ilusão de um futuro perfeito e a brutalidade do agora, escolho a ternura como caminho.


Para Raquel, que me ensinou que a esperança também se escolhe e que existem futuros que só vemos quando alguém nos olha com amor suficiente pra construí-los junto.