Sobre o que só cabe quando a gente se permite levar menos.

16 de maio de 2025, 09:15

A gente sempre acha que já sabe o que levar.

Pega a mochila, escolhe com cuidado: um casaco que aquece, uma lanterna que funciona, aquele caderno que insiste em ficar vazio.

Parece simples.

Mas tem uma pergunta que volta e meia aparece, como se nem quisesse atrapalhar: onde é que a gente guarda as lembranças que ainda nem aconteceram?


É preciso deixar espaço. Não só na mochila. No peito também.

Um bolso esquecido, esperando pelas pedras que ainda vamos catar às margens do rio.

Um canto livre pra caber o cheiro de mato molhado, o susto de um riso que escapa no escuro, o silêncio bom que aparece quando a fogueira vira brasa e o céu começa a inventar perguntas com nome de estrela.

Levo pouco. Só o que ensina.

Porque já entendi: não é a cabana mais cara que protege do vento, nem o canivete cheio de funções que resolve a vida.

O que importa mesmo é o que ainda não aconteceu. É aquela história que ainda nem tem começo. O sorriso de uma pessoa desconhecida. Aquele pedaço de chão que vai caber feito luva... mas que só entra se a gente não tiver ocupado demais carregando o que já passou.

E o mais bonito é isso: a gente volta diferente. Sempre.

A viagem, quando é de verdade, tem essa magia — transforma vazio em poesia.

E a bagagem que parecia leve, volta cheia de mundo.

O que pesa mais não é o que levamos… é o que esquecemos de deixar espaço pra encontrar.

Porque às vezes, o maior encontro da viagem é com o espaço que a gente virou por dentro.


Dedicado ao meu amigo Rushell, que pelas suas aventuras e desvaneios me lembrou que viajar leve é, às vezes, a única forma de caber no próprio caminho.