Quando a filosofia encontra o corpo molhado, o afeto vira um abrigo.
Acordei com a chuva de novo.
Infelizmente, um ano depois, o Rio Grande ainda está pequeno...
Não era só o som no telhado. Era uma memória que não se secava.
A lembrança da Koda enrolada no lençol. Da mão da minha mãe apertando a minha no barco. Do miado do Zoio na caixa. Do canarinho na gaiola no último banco.
Mas, apesar da lembrança ruim, me peguei pensando na preocupação dos amigos.
E tem muitos dias que me pego pensando nisso.
Não na "amizade" que a gente mede por likes ou encontros rápidos. Penso na amizade de quem me ligou com a água entrando no prédio, nas pessoas que choraram por saber que eu estava seco, dessas amizades que demoram, que custam tempo, que doem às vezes, mas que também estavam. E estão.
Aristóteles dizia que amizade é necessária pra vida plena.
Ele separava os amigos em três tipos: os úteis, os que dividem prazer, e os raros amigos de virtude, aqueles que não vão embora quando a facilidade acaba.
Mas amizade é também despedida. Derrida falava da amizade como um espaço cheio de segredos, de perdas que já moram lá antes mesmo de acontecerem.
Nietzsche via a amizade como um espelho corajoso, onde a gente se reconhece ou se reinventa. São amizades difíceis, porque pedem verdade demais, e quase ninguém aguenta.
Foucault dizia que amizade pode ser resistência, um espaço ético onde a gente experimenta novos jeitos de existir.
Talvez por isso meus vínculos mais profundos tenham sido com quem segurou minha mão no meio do absurdo: quando perdi a casa, quando me vi sem cigarro, quando só o barulho da chuva e meu amor me faziam companhia.
Marcuse percebeu que, no capitalismo, as amizades facilmente viram trocas. O carinho pelo status, o afeto pelo ganho.
Bauman chamou isso de amizade líquida, e Byung-Chul Han notou a exaustão dessas relações, onde cada gesto precisa ser performance. Sem espaço pra respirar.
Hoje me pergunto se as amizades que ficaram são as que secaram comigo depois da enchente.
As que não precisaram de palavras quando o barulho da água era maior que tudo.
As que sabiam que a ausência da fumaça também é presença.
Marx falou de amizades sem exploração, sem a dor da competição, onde a empatia não precisaria ser justificada.
Um mundo real nos cantos onde o afeto ainda resiste. Onde ainda há tempo — e não alienação. Aquele tempo que não se mede por relógio, mas por cuidado.
Camus falava do absurdo, Sartre da responsabilidade.
E pode ser que a amizade seja em parte isso, não nos salvar do absurdo, mas sermos companhia dentro dele.
Acordar molhados, mas juntos. Esperar a água baixar sem pressa. Só com presença.
Quem somos nós se não a soma das amizades que guardamos em silêncio, nos espaços onde o tempo não alcança?
E quando o tempo alcança, que ele nos encontre lado a lado. Mesmo que seja só pra lembrar que ainda sabemos respirar juntos.
Para o medo que volta com a chuva, como se cada pingo arrastasse lembranças ainda úmidas. Que ele encontre em nós abrigo, mas não domínio.