Roma foi linda, mas agora é barulho.

São uma da manhã e a máquina de limpeza do aeroporto resolveu lembrar que o chão precisa brilhar, mesmo quando ninguém está olhando. Um carrinho com cara de bicho de estimação gigante atravessa o saguão num zumbido constante, como se aspirasse não só a sujeira, mas também a chance de um cochilo decente.

Meu amor dorme ao meu lado, esparramado como dá, entre duas cadeiras que não foram feitas pra ternura. Eu observo. O corpo cansado, a cabeça ainda cheia, e os pés meio dormentes da espera.

A viagem foi boa. Disso eu sei.

Mas boa não é sinônimo de leve.

Vimos tudo o que nos disseram que era imperdível. Corremos mais do que queríamos. Postamos menos do que esperavam.

E em meio a tudo isso, teve aquele momento.

Um banco no parque da Vila Borghese. O som dos passarinhos. Um Supplì quente na mão, estalando de fritura. E a surpresa boa de provar algo pela primeira vez com alguém que a gente ama.

Foi ali, talvez, que eu consegui respirar de verdade.

Porque o resto era tudo demais. Demais de gente, demais de fila, demais de beleza embalada. Cidades inteiras girando ao redor do desejo alheio.

E o mais triste é perceber como os próprios moradores são arrastados pra dentro dessa sociedade do espetáculo.

A Itália que se vende como espetáculo vive encenando a si mesma. Garçons exageram o sotaque, pizzarias imitam filmes, vendedores sorriem como quem sabe que o sorriso é parte do produto.

Por que isso? Por que um povo precisa interpretar a si mesmo pra continuar sendo?

Talvez porque o turismo não quer realidade. Quer lembrança. Quer "experiência", desde que ela caiba num clique e possa ser publicada entre um gelato e uma fonte barroca.

E a gente, mesmo querendo escapar disso, também participa. Faz fila. Segue o mapa. Espera o pôr do sol junto com outras 300 pessoas tentando parecer espontâneas.

Mas o banco no parque… Aquilo foi real, não foi um espetáculo.

O Supplì também.

E o barulho dos passarinhos, que me levou de volta pra Redenção, pra Canela, pra esse desejo antigo de morar num lugar onde as coisas pudessem ser mais simples.

Não foram. Mas às vezes, por uns minutos, parecem.

Agora, escrevo com o som da máquina limpando o chão e penso que tem algo simbólico nisso. Como se o aeroporto precisasse apagar os rastros da nossa passagem. Limpar qualquer vestígio de humanidade antes da próxima leva de turistas.

Enquanto isso, tento não acordar meu amor. Ele dorme com o corpo torto, mas com a paz de quem viveu.

E talvez seja isso. A gente vive, depois escreve, e no meio do caminho, espera, com ou sem silêncio.