Quando cuidar de si é também enxergar o outro.

Nos últimos meses, tenho me sentido mais visto. Mais escutado. Mais... inteiro, talvez.

Não por um acontecimento grandioso. Mas pelo acúmulo de pequenas decisões.

Casei. Reorientei a rotina. Mudei hábitos alimentares, perdi peso, troquei a forma como me visto.

Mas principalmente: passei a prestar mais atenção em como eu me sinto dentro do que visto.


E é estranho dizer isso. Parece banal. Mas não é.

Percebi, por exemplo, como a simples troca de uma calça por um jeans mais estruturado, ou de uma camiseta por uma camisa com colarinho, altera a forma como as pessoas me tratam na rua.

É como se uma camada de respeito automático se instalasse; não pela minha história, mas pela minha silhueta.

Sou homem, branco, cis, hétero. Tenho um certo conforto social.

Mas até esse conforto, percebo agora, é um ponto fora da curva.

O cuidado físico, emocional e estético não deveria ser um privilégio.

E, no entanto, é.

A falsa universalidade do bem-estar

O discurso do autocuidado vive por aí como se fosse universal.

"Cuide de si", dizem. "Você merece", repetem.

Mas como é possível cuidar de si num mundo onde o básico já falta?

A cultura do bem-estar circula com roupagem de liberdade e autonomia. Mas ignora, quase sempre, o fator material da existência.

Cuidar da saúde, vestir roupas confortáveis, frequentar terapias, preparar alimentos nutritivos... Tudo isso exige tempo, dinheiro, estabilidade.

Pra muita gente, especialmente a classe trabalhadora e os grupos historicamente marginalizados, o discurso do autocuidado é só mais um lembrete de tudo que não se pode acessar.

Erich Fromm, em O Medo à Liberdade, já dizia que o ser humano moderno vive num mundo que ele mesmo criou, mas que não compreende, e que o domina.

Liberdade sem apoio mútuo vira cobrança. Autonomia sem condições vira peso.

Quando não há estrutura coletiva que sustente essa liberdade, a culpa vira o único horizonte.

O cuidado como experiência partilhada

No meu caso, foi através da parceria com a minha esposa que consegui reencontrar um cuidado mais atento ao corpo.

A perda de peso, o redescobrimento da vaidade como bem-estar, a busca por roupas que me representem, tudo isso só foi possível porque tive rede.

Alguém pra incentivar nos dias difíceis. Pra comemorar pequenas vitórias. Pra lembrar do meu valor mesmo quando eu esquecia.

Não deveria depender de sorte, classe social ou tempo livre. Mas ainda depende.

E quando a sociedade insiste na liberdade individual como único ideal, sem garantir as bases materiais pra que essa liberdade exista, quem não dá conta se sente um fracasso.

Mas o fracasso, às vezes, é do contexto. E não da pessoa.

Quem nos ajuda a pensar esse incômodo

Herbert Marcuse, em O Homem Unidimensional, critica como as sociedades industriais criam necessidades falsas, alimentando o consumo e enfraquecendo o pensamento crítico.

Segundo ele, as pessoas acabam se reconhecendo nos produtos que consomem. Como se o carro, a casa, o look do dia fossem espelho e não um escape.

Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, alerta que o isolamento social impede a ação coletiva e favorece o domínio autoritário.

Ela diferencia solidão (espaço de pensamento) de isolamento (impotência). Quando cada um cuida apenas de si, todos ficam mais frágeis.

Silvia Federici, em O Ponto Zero da Revolução, relembra que o trabalho de cuidado (cuidar da casa, dos filhos, dos outros) sempre foi desvalorizado por ser associado ao "amor" ou "dever feminino".

Ela propõe que o autocuidado genuíno só será possível quando o cuidado em torno de nós for igualmente valorizado, visível, dividido.

bell hooks, em Tudo Sobre o Amor, diz que o amor é um ato de vontade, uma escolha ativa, com compromisso com o bem-estar do outro.

Amar a si não é egoísmo. É política. É criar condições internas para cuidar e ser cuidado.

Autoestima

A autoestima que vem do consumo é frágil. Ela depende do elogio, da moda, do reflexo.

A autoestima que nasce da escuta, do vínculo, da reciprocidade... é mais lenta. Mas também mais sólida.

Talvez o que a gente precise cultivar seja um outro tipo de pertencimento.

Um que não dependa do corte da roupa. Mas da forma como nos tratamos nos intervalos.

O pano como documento social

Não é coincidência que um homem de camisa de linho seja tratado com reverência na fila do banco, e outro, de chinelos e camiseta de futebol, seja ignorado.

A roupa virou documento. Um passe.

Mas quem pode acessar esse passe? Quem tem tempo e recurso pra vestir o que quer e não só o que dá?

Bella Freud, bisneta de Freud, explora no podcast Fashion Neurosis como a roupa é reflexo e invenção do eu.

Segundo ela, não vestimos só tecidos. Vestimos afetos, inseguranças, tentativas.

E mesmo onde parece haver liberdade de escolha, há mercado, norma, ruído cultural gritando no provador.

A tal "liberdade de se vestir como quiser" quase nunca é livre.

Uma pergunta que fica

O que seria autoestima num mundo onde cuidar de si não é uma conquista, mas um direito garantido por uma comunidade que também se cuida?

Esse texto não pretende ser um estudo aprofundado, mas uma semente. Pra conversas futuras, em volta de mesas virtuais ou reais, seja lá o que é "realidade" hoje em dia.

Esse texto é uma investigação inicial — um ensaio em construção, como o próprio corpo que pensa.

Para Raquel, que me ajudou a fazer a única escolha correta.