O som da água tem memória. E agora, ela lembra de tudo que quero esquecer.

09 de maio de 2025, 11:00

Quando chove, não é mais como antes.

Eu não durmo.

Acordo com o corpo tenso, como se ainda houvesse uma régua invisível subindo pela parede da sala. Como se a trena estivesse ali, na cabeceira, medindo centímetro por centímetro de lembrança.

Cada pingo no telhado soa como alerta. O som que antes embalava, agora interroga.

Lembro de tudo.


Lembro da água subindo. Das ruas virando canais sujos, tingidos de azul químico, vermelho ferrugem — o resto das fábricas dissolvendo na enchente. Barcos improvisados com tonéis, boiando onde antes passavam carros. Barcos remando com pá, com tábua, com esperança torta.

Ficamos em casa o quanto deu. Mas teve um momento em que não dava mais.

Na primeira saída, fui com meu amor. Deixamos os gatos com minha mãe. Ela olhou firme e disse: "Vão. Depois vocês voltam pra nos buscar."

Era um pedido e uma ordem. Obedecemos.

Saí com o coração preso nas janelas da casa e nas garras do Rex. A cada braçada do barco, a promessa de voltar latejava mais forte.

E voltei.


Voltei sozinho, já sabendo que haveria ajuda. Os barqueiros estavam lá, esperando. Homens de gesto direto, silenciosos como a água que conheciam. Me ajudaram sem precisar de palavra.

Cada um sabia o que fazer.

Minha irmã e minha cunhada subiram primeiro. Entreguei a pastor alemão pra elas, enrolada num lençol. Ela estava calma. Tinha os olhos de quem entende tudo, mas escolhe confiar.

Depois, as duas gaiolas com os quatro gatos. Um miado ou outro escapava entre as grades, mas eles sabiam que estavam indo. Sabiam que a casa, por enquanto, era aquilo: um barco.

Por último, voltei até minha mãe. Ela já esperava. Segurou minha mão com força, e subimos juntos.

O barco partiu cheio: sete pessoas, quatro gatos, um cachorro e um canarinho que veio na gaiola de um senhor sentado no último banco.

Não trocamos palavras. O silêncio ali dizia tudo.

A água seguia suja, colorida de fábrica. Mas a gente seguia também.

Flutuando devagar, como quem leva o que importa.

A bota se foi, e nem fez falta. O que me calçava naquela manhã era outra coisa: urgência, promessa, amor com pressa.

O couro rasgou na água suja, e ficou. Eu segui.


Hoje, o barulho da chuva ainda me acorda. Mas não por pavor.

É como se o som dissesse: "Lembra?"

E eu lembro.

Mas de um jeito diferente agora. Sem a mesma raiva. Sem a mesma aflição.

Só a constatação de que o que antes me embalava, hoje me confronta.

E talvez seja nisso que mora o recomeço.


Não em esquecer, nem em perdoar a chuva — mas em aceitá-la como ela é agora:

um som que mudou de nome.


Escrevo pra não me perder de novo. Escrevo porque agora sei que nem tudo que molha destrói.

Às vezes, só revela o que ainda tá por secar.