Acordei percebendo que havia perdido algumas das chaves que estavam em meu chaveiro.
Não sei bem em que momento elas caíram do bolso.
Só sei que, quando fui procurar, já estavam enroladas em tentáculos, longe do meu alcance.
E com isso perdi a possibilidade de abrir algumas portas que pareciam ser caminhos claros pro futuro.
O capitalismo não se contenta em nos cercar. Ele nos envolve.
Tira de nós a decisão do que fazer no nosso dia.
Quando nos damos por conta, a rotina não é mais nossa, é arrendada, terceirizada, controlada.
Como é frágil a ilusão de controle sobre a vida.
Demoramos anos pra conquistar um pouco de ordem, um pouco de espaço pra respirar.
E, de repente, o chão se desloca.
As regras mudam sem consulta.
O corpo, que tinha encontrado um ritmo, é obrigado a dançar outra música.
Esse desalinho traz medo.
Medo de perder as pequenas vitórias que custaram tanto.
Medo de não ter disciplina para uma vida que já não é inteiramente minha.
Mas quando o medo cresce, preciso lembrar o que é vitória de verdade.
Não é o crachá.
Não é o calendário controlado por outros.
Não é a sensação de estar num lugar “certo”.
Vitória é acordar cedo e preparar o café no meu ritmo.
É acordar a Raquel do jeito que ela gosta e ver o sorriso nascer com o cheiro do café.
Vitória é dividir café, almoço e jantar.
É andar de mãos dadas pelo centro de Porto Alegre.
É trilha na serra ou no litoral, sabendo que onde ela está é o meu lar.
O resto pode ruir.
Isso, não.
Isso não pode ser tomado.
E é daí que nasce o combate.
Porque sei que muito do que vivo hoje seria lido como privilégio.
Mas o mínimo não deveria ser privilégio.
Comer bem, dividir a vida com quem se ama, ter tempo para passear sem medo.
Isso não deveria ser exceção.
Isso deveria ser chão,
não teto.
Então, quando os tentáculos apertam, a resposta não é só me agarrar às minhas vitórias.
É lutar para que essas vitórias não sejam apenas minhas.
É recusar a ideia de que ter o básico é mérito.
É transformar a vida que conquistei, junto da Raquel, em argumento.
Se é possível pra mim, tem que ser possível pra todos.
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Talvez eu siga acordando com a sensação de chaves perdidas.
Mas se eu carregar comigo a certeza de que os caminhos conquistados ainda são portas abertas, seguirei em paz,
ao menos em parte.
E assim posso chegar onde os tentáculos não me causem tanta dor.
Porque o mínimo não deveria depender de algo que fazemos parecer “mérito”.