Quando o corpo finalmente aprende o que a cabeça já sabia.
Esta é a continuação de uma escuta que começou na infância, passou pela pandemia, e chegou até o pronto-socorro numa virada de ano.
Se você chegou até aqui agora, cada parte se sustenta sozinha. Mas se você acompanhou desde o começo, sabe que esse corpo vinha pedindo socorro há muito tempo. E que eu demorei mais do que devia pra escutar.
Aviso de gatilho para distúrbios alimentares.
A enchente que mediu o que eu não sabia
A Parte III parou num momento de susto. Triglicerídeos, colesterol, vesícula cheia de pedras. O corpo dando conta do que eu não queria encarar.
Mas a virada de verdade não foi nos exames.
Foi na água.
Maio de 2024. O Rio Grande do Sul afundou.
E com ele, afundou também a imagem que eu tinha de mim mesmo.
Quando a enchente chegou, eu precisei me mover de um jeito que o corpo não estava preparado. Água na cintura, braços carregando as gaiolas dos gatos, um de cada vez. Minha mãe esperando. Minha irmã e minha cunhada esperando. O cachorro enrolado num lençol, pesado e assustado.
Os braços tremiam. Não de frio, não de medo. De esforço.
Aquele tremor não era dramático. Era só a realidade do que eu havia me tornado: um corpo que não conseguia fazer o que precisava fazer.
Um corpo que havia pedido socorro por anos, em exames, em dores, em cansaço, e que agora cobrava em plena enchente, com a água subindo.
Foi ali que a decisão parou de ser ideia e virou urgência.
Não urgência de emagrecer. Urgência de viver.
Fome de viver.
O cigarro que foi junto com a água
Em Torres, depois do resgate, enquanto tentávamos respirar longe do caos, o cigarro foi embora também.
Não foi uma decisão heróica. Foi o corpo dizendo chega de uma vez de duas coisas ao mesmo tempo: a água que destruía lá fora e a fumaça que destruía por dentro.
Por anos o cigarro foi companhia, refúgio, ritmo. Um gesto que organizava o tempo quando o tempo não tinha forma.
Mas naquele momento em Torres, olhando pro horizonte com tudo que ficou pra trás ainda pesando, entendi que não cabia mais.
Que se eu queria viver mais, precisava parar de me consumir.
Nunca mais toquei num cigarro.
Ano para aprender a habitar o próprio corpo
O que veio depois não foi linear. Nunca é.
Foram três nutricionistas, a academia que não encaixava, o padel que virou moda mas não virou hábito. Tudo isso já tinha acontecido antes da enchente, descrito na Parte III.
O que mudou depois foi a motivação.
Antes eu tentava porque sabia que devia. Depois eu tentava porque havia sentido, no corpo, o custo de não tentar.
A vesícula ficou. Os médicos disseram que se eu me mantivesse bem, não precisaria removê-la. E ela ficou como fica quem sabe de tudo: quieta na maior parte do tempo, mas capaz de doer quando o descuido aparece.
É um lembrete orgânico. Incômodo, mas honesto.
A Raquel estava em tudo. Em cada consulta, em cada escolha, em cada dia em que o corpo quis desistir e ela ficou. Não como salvadora, como companheira.
E se me perguntarem se fiz isso por mim ou por ela, ainda misturo as duas coisas.
E já aprendi que essa mistura não é fraqueza. É como o amor funciona quando é real.
O casamento estava à frente como motivação enorme. Queria chegar inteiro naquele dia. Queria dançar até o chão e acordar no dia seguinte sem estar destruído. Queria que o corpo que prometesse viver junto com ela fosse um corpo que realmente quisesse viver.
Entre o Natal do pronto-socorro e o casamento em abril de 2025, foram quase trinta quilos.
Não em linha reta. Não sem recaída. Mas foram.
O alfaiate e o corpo que finalmente cabia em alguma coisa
Quando decidi que precisava de um terno, as lojas disseram não. Corpo fora do padrão não cabe nos moldes prontos.
Foi assim a vida inteira, de certa forma.
Até que encontrei o Matheus. Alfaiate. Pessoa cuidadosa, detalhista, aberta.
Juntos costuramos mais do que uma roupa. Costuramos uma forma de me apresentar ao mundo numa nova fase.
Um mês antes do casamento, o Matheus pediu que eu estabilizasse o peso. A roupa precisava de uma medida certa pra ser feita com precisão.
E foi esse pedido, talvez, o que mais me fez entender o que estava acontecendo.
Pela primeira vez em anos, o meu corpo era uma medida. Não um problema a resolver. Uma referência.
Estabilizei. E o traje foi feito.
Na manhã do casamento, o terno chegou. Vesti devagar. O tecido assentou nos ombros como se tivesse sido feito pra mim.
Porque havia sido.
Saí do quarto do hotel. E ali, na recepção, um casal de senhores parou. Me olharam por um instante. E pediram pra tirar uma foto comigo, achando que eu era alguém importante.
Não sei quem eles pensaram que eu era. Não perguntei.
Mas fiquei ali parado, sorrindo, enquanto eles guardavam aquele momento no celular.
Seja lá o que isso quer dizer.
Para Raquel, que esteve em cada passo desse caminho sem precisar que eu pedisse.
Para o casal de senhores na porta do hotel, que sem saber serviram de espelho pro homem que eu havia me tornado.
A história continua.