Quando o corpo já tentou de tudo, e mesmo assim continua pedindo cuidado.

Esta é mais uma etapa de uma escuta que começou lá atrás, com a infância, com a pandemia, com o silêncio entre uma consulta e outra.

Escrevo pra lembrar do que já doeu, mas também pra entender o que ainda pulsa.

Se você chegou até aqui, talvez já tenha lido a Parte I e a Parte II. Mas não precisa. Cada fragmento se sustenta por si. Este aqui fala de tentativas, recaídas, sustos, e do momento em que a urgência virou escolha.

Aviso de gatilho para distúrbios alimentares.

Pedras no Caminho

A pandemia virou lembrança. Virou "ap" e "dp". Antes da pandemia, depois da pandemia.

Eu fui voltando aos poucos. Tentando me reerguer.

Demorou.

Ainda precisava aprender muito. Dar valor a mim mesmo. Pra então poder seguir.

Fui ao endócrino. Exames bons, início de 2023.

Três nutricionistas diferentes.

Acho que todas acharam que eu mentia. Ou fazia tudo errado.

Academia? Duas, três tentativas. Padel, esgrima, corrida, era moda em 2023?

Nada encaixava. Tudo incomodava. Tudo tinha algo em comum:

eu.

Aí chegou dezembro. Tempo de fartura, alegria, comida. Tudo isso num corpo que já tinha tentado de tudo, e falhado.

Pelo menos dessa vez, pensei, vou aproveitar.

Não.

Foi o que ouvi, em alto e bom som, de mim mesmo, às duas da manhã do dia 25 de dezembro, tentando decidir se corria pro vaso ou pro balde.

A panceta, seis horas no forno, pele retirada por mim, cuidado em cada etapa, e foi ela que me derrubou.

Tudo porque não quis jogar fora. Porque não jogar fora ainda era um gesto de amor.

Foi uma semana pesada. Mas Raquel estava ali.

E o trabalho ocupou o tempo e a cabeça.

Ano novo no pronto-socorro. Nenhum remédio segurava o estômago. Mesmo assim, linguiça, panceta, picanha, caipirinha.

Tentei insistir.

Ano novo, vida nova. Era o que eu queria.

Raquel esteve em cada consulta. Mais de cinco em dez dias.

Endoscopia. Coleta de sangue. Ecografia.

E ela ali. Cuidando da rotina. Cuidando de mim.

Em algum momento nesse caos, uma luz acendeu.

Noivo há menos de três meses. Casamento à frente. Um mulherão do meu lado.

E eu ainda me comportando como aquele gordinho de cinco anos?

Será que eu não vou chegar nos meus 30?

Ali começou o acerto de contas com anos de descuido.

Eu achei que viria em parcelas. Veio no PIX. À vista.

Se até o início do ano os exames vinham bons, toma: 250 de triglicerídeos. 180 de colesterol.

Se achava que nada ia me atingir, toma: uma vesícula cheia de pedras, pra carregar junto com o peso do que ingeri.

O corpo deu todos os sinais. Era aviso, era ruído, era sirene.

E eu quase deixei passar.