Quando o corpo vira abrigo e aviso ao mesmo tempo.
Esta é a continuação de uma escuta interior. Escrevo para lembrar do que foi vivido, mas também para entender como tudo isso ainda vive em mim, e quem sabe ajudar algumas pessoas com uma jornada parecida.
Se você chegou aqui agora, talvez saiba que existe uma Parte I, ela não é necessária para compreender o que está descrito aqui, mas traz o contexto da minha infância.
Aviso de gatilho para distúrbios alimentares.
Pandemia
Com o tempo, os velhos hábitos voltaram.
Entre idas e vindas, meu corpo tentava me avisar, mas meus ouvidos sempre apontavam pra outro lado.
Alguns quilos vieram com a efetivação no primeiro emprego formal: responsabilidade, pressão, ansiedade.
Tudo isso se acumulou em peso literal e metafórico.
Mas o pior ainda estava por vir, a pandemia.
Se antes eu não ouvia o que o corpo queria me dizer, nesse período fui, aos poucos, me afastando do que queria ser.
Aquela vontade de dar uma volta pela cidade, pegar o trem pro centro, caminhar na orla, nenhuma.
E, aos poucos, enquanto a sanidade se fragmentava, os pensamentos do momento pandêmico se materializavam em mim:
2 quilos nessa semana, nem é tanto. 3 na próxima, parece que tem algo estranho, mas tá ruim pra todo mundo. 5 em uma mais deprimida, e como seria diferente?
A sensibilidade com o tempo, com o corpo, com o mundo, tudo ficou meio desbotado.
A vida foi se esfarelando em tarefas e notificações, e a comida voltou a ser abrigo.
Só que agora não era celebração.
Era ansiedade.
Se antes comer era alegria, e alegria era um convite pra comer mais, na pandemia a equação mudou: ansiedade virou fome, fome virou distração, e o prato virou escape.
O corpo foi acumulando o que eu não conseguia nomear.
Não era só gordura.
Era peso de mundo, de medo, de incerteza, de falta de esperança, fome de futuro tentando ser saciada com uma carbonara.