Uma jornada de escuta, peso e presença: escrita como lembrete, não como receita.
Esta coletânea nasce como uma tentativa de entender meu corpo, e escutar o que ele vem tentando me dizer há anos.
São fragmentos, lembranças, recomeços. Textos que começam aqui, neste prólogo, e que vou costurando aos poucos, enquanto caminho.
Se, em algum momento, estas palavras ajudarem outras pessoas a se verem, que bom.
Mas, acima de tudo, escrevo para não esquecer, para me lembrar do que já passei, e do lugar que estou tentando alcançar.
Aviso de gatilho para distúrbios alimentares.
Prólogo
Sempre fui o gordinho da turma, o filho do padeiro, o filho da confeiteira.
Sempre tive os braços grossos, as bochechas que pediam beliscão, uma presença que ocupava espaço antes mesmo de eu entender o que isso queria dizer.
Na escola todo mundo sabia onde eu estava, era só seguir o som da risada ou o cheiro de farinha que me acompanhava mesmo fora da padaria.
Sofri bullying na sexta e na sétima série, e hoje sei que isso diz mais sobre quem faz do que sobre quem sofre.
Na casa dos outros eu era o amiguinho que levava pão, o menino que sabia enrolar cueca virada.
Tinha orgulho disso.
Ainda tenho.
Na minha família, comida era sinal de amor.
Ter comida era vitória.
Comer junto era celebração.
E celebrar era motivo pra comer mais um pouco.
Muitas vezes a fome nem era de comida, mas a resposta era sempre o prato.
Tive momentos de menor peso, momentos em que eu me sentia melhor dentro do meu corpo, no final da adolescência, por volta dos 16 ou 17 anos.
Perdi peso, me movia mais, encontrei rotinas que faziam sentido pra mim.
Sentia leveza, não só no corpo, mas no jeito de ocupar os espaços.
Tinha roupa que cabia, espelho que não doía.
Algumas dessas descobertas ficaram comigo, fizeram morada.
Ainda fazem.